Sabe aquela sensação de seguir cada passo da viagem de uma encomenda, de tão ansioso que está pela sua chegada? Na SPEA, é exatamente assim que estamos a acompanhar os “nossos” tartaranhões-caçadores (ou águias-caçadeiras, Circus pygargus) — que equipámos com emissores GPS no âmbito do projeto LIFE SOS Pygargus.

 

E as novidades são boas.

 

A meio de abril, recebemos sinais animadores: as duas fêmeas adultas já estavam em viagem de regresso a Portugal e encontravam-se em Marrocos, prestes a atravessar o Estreito de Gibraltar. Melhor ainda, uma ave juvenil, que não dava notícias desde outubro, voltou a emitir sinal. Contra todas as expectativas, está viva e permanece no Sahel, provavelmente na região do Mali, onde muitas destas aves passam o inverno.

Carlos Pacheco

Entretanto, na mais recente atualização, a 29 de abril, confirmámos que as três aves já cruzaram o Estreito de Gibraltar e estão agora em território ibérico. O juvenil passou a fronteira no dia 28 e foi passar a noite na zona de MeridaDas duas fêmeas adultas, uma já está aparentemente a iniciar a nidificação, no alto Alentejo, na mesma região onde nidificou o ano passado. A outra parece ainda estar a explorar possíveis locais de nidificação: depois de passar o estreito, foi para o nordeste de Portugal, depois voltou para sul, para perto de Salamanca, e está agora a sudoeste de GredosO regresso às áreas de reprodução é um momento crítico no ciclo de vida desta espécie — e acompanhá-lo quase em tempo real permite-nos compreender melhor os seus desafios e necessidades. 

 

Uma espécie em risco

O tartaranhão-caçador é uma ave de rapina migradora que percorre milhares de quilómetros todos os anos entre África e a Europa. Em Portugal, nidifica sobretudo em zonas agrícolas, como searas de cereais, o que a torna particularmente vulnerável às atividades humanas, nomeadamente à colheita precoce dos fenos. Isto porque esta ave faz o ninho no chão, e se os agricultores cortarem as searas em abril ou maio, há o risco de os ovos ou crias serem destruídos, ou de o ninho ficar exposto a predadores.

 

A destruição de ninhos, a perda de habitat e as alterações nas práticas agrícolas contribuíram para o declínio da espécie nas últimas décadas. Atualmente, está classificada como “Vulnerável” em Portugal.

 

Seguir para proteger

Foi precisamente para inverter esta tendência que surgiu o projeto LIFE SOS Pygargus, coordenado pela Palmobar, e do qual somos parceiros. Este projeto tem como objetivo melhorar o estado de conservação da águia-caçadeira em Portugal, evitando o seu agravamento para “Criticamente em Perigo”, aumentando o sucesso reprodutor e promovendo o estabelecimento de novas colónias. Ao mesmo tempo, procura melhorar as condições dos habitats de reprodução e alimentação, compatibilizar as práticas agrícolas com o ciclo reprodutivo da espécie e trazer a natureza de volta aos terrenos agrícolas — uma das prioridades da Estratégia da Biodiversidade da União Europeia para 2030.

 

Neste contexto, a monitorização por GPS é uma ferramenta preciosa. A colocação de emissores GPS em algumas aves permite acompanhar os seus movimentos ao longo de todo o ano, identificar áreas-chave para a espécie e antecipar ameaças. Esta informação permite ainda aos nossos técnicos encontrar os ninhos destas aves no terreno, e confirmar se estão seguros. Cada nova localização recebida é mais do que um ponto no mapa: é informação vital para melhorar a conservação desta ave.

 

Da nossa parte, continuamos a seguir cada “passo” destas viajantes incansáveis. E, tal como com aquela encomenda tão aguardada, há uma expectativa crescente: que cheguem em segurança, escolham bons locais para nidificar e tenham uma época de reprodução bem-sucedida.

 

Vamos continuar a acompanhar — e a partilhar — esta viagem.

 

Mais informação

Projeto LIFE SOS Pygargus

Sobre o tartaranhão-caçador (águia-caçadeira)