Apesar da redução da área ocupada por painéis solares, a reformulação do projeto não resolve os principais problemas ambientais identificados: a destruição de azinheiras e sobreiros protegidos, a perda de habitats e a fragmentação de corredores ecológicos fundamentais para a biodiversidade da região.
A SPEA-BirdLife com o apoio do GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente e da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), mantém a sua posição desfavorável à construção da Central Solar Fotovoltaica de Sophia e LMAT associadas, prevista para os concelhos de Penamacor e Idanha-a-Nova e Fundão. Apesar das alterações apresentadas pelo promotor, que incluem uma redução de cerca de 36% da área coberta por painéis solares, os impactes ambientais negativos, significativos e, em muitos casos, irreversíveis, mantêm-se praticamente inalterados.
Um dos aspetos mais preocupantes é a destruição de árvores autóctones protegidas. De acordo com a nossa análise, o projeto reformulado poderá implicar o corte ou a afetação de, pelo menos, 2.473 azinheiras e sobreiros, incluindo árvores não contabilizadas pelo promotor ao longo das vedações. Estima-se o corte de, pelo menos, 1.646 árvores protegidas, um aumento de cerca de 7% face ao projeto anterior, apesar da redução da área de painéis.
Estas árvores desempenham funções ecológicas essenciais: proporcionam alimento, abrigo e locais de nidificação para inúmeras espécies, protegem os solos e contribuem para a regulação do ciclo da água e para o armazenamento de carbono. A sua substituição por novas plantações não permite recuperar estas funções num prazo equivalente à vida útil da central, estimada em 40 anos.
Uma central “mais pequena”, mas com uma enorme pegada ecológica
A central continuará a ocupar uma área vedada de cerca de 1.177 hectares, com aproximadamente 74,5 km de vedações, que constituirão barreiras à circulação da fauna e contribuirão para a fragmentação dos habitats. A construção afetará ainda 42,8 hectares de vegetação natural e seminatural, incluindo formações de azinheiras e sobreiros, matos e vegetação ribeirinha.
A área de implantação integra o Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO e situa-se numa região de elevado valor ecológico, entre o Tejo Internacional, a Serra da Malcata e a Gardunha. A transformação desta paisagem ameaça a conectividade entre áreas naturais e poderá comprometer a sobrevivência de espécies ameaçadas.
Entre as aves potencialmente afetadas destacam-se a águia-imperial-ibérica e o cortiçol-de-barriga-branca, classificados como Criticamente em Perigo, bem como o abutre-preto, o britango e a cegonha-preta. A perda de áreas de alimentação, a perturbação e a fragmentação dos habitats continuam a constituir ameaças significativas. Acresce a instalação de uma linha elétrica de muito alta tensão com cerca de 22 km, que aumentará o risco de colisão para aves de rapina e outras aves planadoras (cegonhas).
Os efeitos do projeto não se limitam à biodiversidade. A remoção da vegetação, a compactação e a degradação dos solos, a alteração da paisagem e a perda de terrenos com usos agrícolas e florestais terão consequências para as comunidades locais e para atividades económicas como a agricultura, a atividade agropastorile o turismo de natureza e cultural.
A transição energética não pode ser feita à custa da natureza
Defendemos que a produção de energia renovável é indispensável para combater as alterações climáticas, mas a sua localização deve respeitar os valores naturais e as comunidades locais. A prioridade deve ser dada a áreas já artificializadas ou degradadas, evitando a destruição de habitats de elevado valor ecológico, paisagísticos e geológicos.
Segundo Julieta Costa, Coordenadora do nosso Departamento de Conservação Terrestre, “reduzir a dimensão de um projeto não é suficiente quando persistem os mesmos problemas de localização e os impactes continuam a ser significativos. Por isso, a SPEA-BirdLife mantém o seu parecer desfavorável à Central Solar de Sophia, considerando que a reformulação apresentada não assegura a proteção da biodiversidade, da paisagem e dos recursos naturais desta região.”
Mais informação
Parecer da SPEA-BirdLife, Geota e LPN ao projeto reformulado da Central Sophia
