Por estes dias, milhares de aves atravessam Portugal durante a migração — e muitas não sobrevivem ao percurso por causa de uma ameaça invisível: os vidros dos nossos edifícios. As superfícies transparentes ou espelhadas transformam-se em armadilhas fatais, pelo que apelamos a todos os cidadãos que registem colisões de aves, ajudando a expor a verdadeira dimensão deste problema.

 

No formulário disponível aqui no nosso site, pode registar colisões de aves, ajudando-nos a identificar espécies afetadas, mapear os locais mais perigosos e pressionar para a adoção de soluções eficazes.

 

Registar colisão

 

“Pedimos que, sempre que vejam uma ave a colidir com uma janela, barreira acrílica ou outra superfície transparente ou espelhada — ou encontrem uma ave morta ou atordoada junto a uma destas barreiras — façam o registo no formulário”, afirma Hany Alonso, Técnico Sénior de Ciência da SPEA-BirdLife. Mesmo que as observações de colisões tenham sido feitas há algum tempo, podem à mesma registar no formulário, desde que consigam reportar a data.

 

Não se trata de casos isolados. Estas colisões matam centenas de milhões de aves todos os anos a nível global. Em Portugal, um estudo da SPEA-BirdLife (2024) revela um dado alarmante: em 82% dos casos registados, a ave não sobrevive.

 

“Para espécies como o guarda-rios, o gavião ou o papa-moscas-preto, as colisões com superfícies transparentes ou espelhadas representam uma fatia significativa da mortalidade não-natural”, sublinha Hany Alonso.

 

 

 

O problema está em todo o lado — de grandes edifícios com fachadas espelhadas a barreiras acústicas em autoestradas, paragens de autocarro, campos de padel ou até janelas domésticas com vista para jardins. Para as aves, a barreira de vidro é invisível, e por vezes reflete de forma exata o ambiente envolvente, incluindo o céu e vegetação, criando uma ilusão fatal.

 

As aves têm muita dificuldade em reconhecer o vidro e outras superfícies transparentes ou espelhadas como obstáculos físicos. Primeiro, porque não reconhecem as pistas visuais que nós humanos usamos para identificar a presença deste tipo de superfícies, como a moldura de uma janela, o puxador de uma porta ou mesmo a estrutura de um edifício. Por outro lado, quando estão em voo deslocam-se a grande velocidade, pelo que quando se apercebem da barreira podem já não ter tempo suficiente para reagir. O impacto da colisão é imediato e, muitas vezes, letal.

 

Mais do que denunciar o problema, queremos agir. Os dados recolhidos através deste formulário permitirão identificar pontos críticos e trabalhar com responsáveis por edifícios e infraestruturas para implementar soluções que reduzam estas mortes evitáveis, assim como ajudar as pessoas que têm este problema em alguma janela da sua casa, para encontrarem uma solução viável e que seja fácil de aplicar.

 

Boas práticas e soluções

A ciência é clara: superfícies transparentes e espelhadas de grande dimensão são perigosas para as aves, e esse risco deve ser prevenido logo na fase de projeto.

 

“É essencial planear antes de construir. Evitar superfícies transparentes ou espelhadas em zonas sensíveis pode fazer toda a diferença”, afirma Hany Alonso.

 

Recomendamos evitar este tipo de superfícies em áreas como ribeiras, zonas húmidas, parques e jardins. Quando o vidro é inevitável, existem soluções simples e eficazes, como a aplicação de películas ou padrões visíveis para as aves. Estas devem ser colocadas no exterior e cobrir toda a superfície, seguindo orientações técnicas disponíveis no site da organização.

 

“Em edifícios de grande dimensão, é também fundamental testar e monitorizar a eficácia das medidas implementadas”, acrescenta Hany Alonso.

 

Apelamos a autarquias, empresas e decisores para que deixem de ignorar este problema e integrem soluções na concepção dos espaços urbanos. Reduzir colisões não é opcional — é uma responsabilidade urgente para proteger as aves e travar uma perda de biodiversidade que está a acontecer à vista de todos.

 

Mais informação

Formulário para registar colisões de aves