O ICNF ordenou a suspensão das obras na muralha medieval de Trancoso até ao final da época de nidificação, após denúncias e protestos de organizações e cidadãos. Em causa está uma das maiores colónias nacionais de andorinhão-preto, cuja reprodução vinha sendo afetada pelas intervenções em curso.
Apesar desta decisão, a colónia não está ainda a salvo. Os andaimes e redes que bloqueiam o acesso aos ninhos mantêm-se no local, continuando a impedir que as aves cheguem aos seus locais de nidificação, principalmente na torre do castelo. Juntamente com as outras organizações de ambiente envolvidas, defendemos a remoção urgente destas estruturas, e recomendamos a instalação de caixas-ninho próprias para andorinhões nos locais onde os orifícios de nidificação tenham sido vedados, de modo a impedir danos permanentes nesta colónia. Se a obra recomeçar após o fim da época de nidificação, seria importante a Câmara Municipal de Trancoso e a Monumenta — empresa que está a realizar a obra — procurarem soluções que permitam estabilizar a muralha sem tapar os orifícios de nidificação dos andorinhões, à semelhança do que já foi feito em Espanha.
A suspensão das obras resulta de um esforço conjunto no terreno e a nível nacional. O trabalho de vigilância e denúncia desenvolvido pelo CERVAS/Aldeia, pelo Laboratório Rural, pela Quercus e pela Rewilding Portugal, aliado à mobilização promovida pela SPEA — que levou vários cidadãos a escrever ao presidente da Câmara Municipal de Trancoso a pedir a suspensão imediata dos trabalhos — foi determinante para travar temporariamente a intervenção.
Ainda assim, o processo arrastou-se durante várias semanas desde as primeiras denúncias, um atraso com consequências para as aves numa fase crítica do seu ciclo de vida. Os andorinhões-pretos são migradores que regressam nesta altura do ano aos mesmos locais para nidificar, sendo particularmente sensíveis a perturbações nesta altura.
Este caso expõe também falhas graves por parte da autarquia. Segundo o ICNF, a Câmara Municipal de Trancoso não solicitou a licença obrigatória para intervir em ninhos de aves selvagens, como exige a legislação nacional e europeia, que proíbe a destruição de ninhos e a perturbação das espécies durante a época de reprodução.
Na SPEA, sublinhamos que a proteção desta colónia exige agora medidas concretas e imediatas no terreno, para garantir que a suspensão das obras se traduz efetivamente na salvaguarda destas aves emblemáticas.
