E se salvássemos menos aves? Parece um objetivo estranho para uma organização como a SPEA-BirdLife, mas permita-nos explicar. Todos os outonos, as nossas equipas na Madeira e Açores recrutam dezenas de voluntários e passam noites a fio a salvar milhares de aves marinhas feridas, exaustas e desorientadas pelas luzes. Mas se ajustássemos a iluminação, menos aves precisariam de ser salvas. Mais de quatro anos de trabalho em três arquipélagos mostram que não só é possível, como traz poupanças aos municípios e melhorias à qualidade de vida das pessoas.

 

Poluição luminosa na Madeira ©Ruben Jesus

Ruben Jesus

 

No projeto LIFE Natura@night, juntámos conservacionistas, empresas de iluminação e municípios para desenvolver e aplicar soluções na Madeira, Açores e Canárias. Além de resgatar 10200 aves por ano, aprofundámos o conhecimento científico sobre os efeitos da poluição luminosa em aves, insetos e morcegos, e demonstrámos que os benefícios para os municípios são reais: chegaram aos 60% de poupança!

 

Campanhas de resgate de aves marinhas

 

Até ao dia em que conseguirmos tornar a noite segura, o outono vai continuar a ser sinónimo de campanhas de resgate. Para Elisa Teixeira, Técnica de Conservação na SPEA Madeira, a noite de campanha começa logo de manhã: é preciso enviar lembretes para os voluntários, confirmar quem tem carro e quem precisa de boleia, acionar seguros… enfim, organizar toda a logística de coordenar 30 a 50 voluntários por noite — entre residentes da ilha e pessoas de fora que vêm de propósito para salvar aves marinhas — para formar brigadas de resgate eficazes. “A noite em si começa bastante cedo, a partir das seis já temos pessoas a chegar à nossa sede, às vezes só para buscar material, outras para usufruir das nossas boleias”, diz Elisa. “Pegamos então nas nossas viaturas da SPEA, algumas viaturas pessoais nossas ou de alguns voluntários, e vamos ali com o carro a abarrotar de pessoas e de caixas de resgate, para chegarmos aos pontos a tempo.”

 

Voluntárias prontas a iniciar a sua brigada de resgate de cagarras

Voluntárias prontas a iniciar a sua brigada de resgate de cagarras ©Elisa Teixeira/SPEA-BirdLife

Cláudia Camarinha

 

Cada brigada (geralmente pelo menos 2 pessoas) começa no seu ponto de partida à hora predeterminada, e percorre um trajeto fixo, procurando cagarras que tenham caído por terra. Se encontrarem alguma, seguem os procedimentos que aprenderam na formação prévia para colocarem a ave em segurança numa caixa de resgate, e contactam a Elisa, a Catarina ou o Tiago (os técnicos da SPEA responsáveis por coordenar os resgates em diferentes áreas da ilha), que vêm buscar a ave e trocá-la por uma caixa vazia, para que as brigadas de salvamento tenham sempre caixas caso encontrem mais aves no resto do trajeto. Cada brigada percorre o seu trajeto duas vezes, para o caso de alguma ave ter caído depois da primeira passagem. Ao fazer os mesmos trajetos à mesma hora ano após ano, a equipa SPEA-BirdLife obtém dados sistemáticos que podem ser cruzados com informação sobre as alterações à iluminação e com dados do sucesso reprodutor para acompanhar o estado da população de cagarras e avaliar a eficácia das medidas de redução da poluição luminosa.

 

Porque é que as aves caem por terra?

 

As aves que caem por terra são vítimas do choque entre milhares de anos de evolução e décadas de ingenuidade humana. No outono, os juvenis de cagarra (ou cagarro, como é conhecido nos Açores) saem dos ninhos e fazem-se ao mar, onde passarão a maior parte das suas vidas. No escuro da noite, emergem das tocas em que nasceram e procuram o brilho do mar no horizonte. Mas infelizmente, hoje em dia, os reflexos do mar não são o único brilho no Atlântico – nem o mais evidente. As luzes das nossas vilas e cidades iluminam os céus, e estes juvenis pouco experientes são atraídos pela luz “errada”: em vez de voar para o mar, dirigem-se para zonas humanizadas. Estas aves de hábitos noturnos têm olhos sensíveis à luz, por isso ficam muitas vezes encandeadas pela intensidade das luzes artificiais, acabando por chocar com edifícios, linhas elétricas e veículos. Algumas acabam por cair ao chão, podendo mesmo morrer devido aos ferimentos ou à incapacidade de voar. São estas as aves que as brigadas de resgate recolhem nos seus percursos.

 

“Mas a noite ainda não acabou!” diz Elisa. Feitas as duas rondas, as brigadas reúnem num ponto de encontro onde cada ave é examinada para ver se tem ferimentos, pesada, e equipada com uma anilha identificadora na pata e um emissor de GPS que permitirá seguir os seus movimentos e perceber como interage com as zonas mais e menos iluminadas da costa. E é então que chega o momento mais marcante: soltar a ave junto ao mar. “Tem gente que leva essa experiência para a vida: às vezes encontro um voluntário de há 5 anos atrás que ainda se lembra da cagarra que salvou, que tinha lhe dado um nome, que chorou quando ela levantou voo…” sorri Elisa com um brilho nos olhos.

 

Cagarra resgatada em campanha de resgate ©Andrea Zanenga

Andrea Zanenga

 

A equipa SPEA Açores tem histórias semelhantes da campanha SOS Cagarro, agora coordenada pelo Governo Regional, mas na qual continuamos a ter um papel ativo em São Miguel e no Corvo. Em São Miguel, nos últimos dois anos, as brigadas de resgate da SPEA-BirdLife contaram com o apoio de uma médica veterinária para prestar cuidados de emergência na hora, às aves que necessitassem. Neste arquipélago, o número de aves caídas por noite é tão elevado que é necessário recolhê-las em grupos e libertá-las na manhã seguinte. Para facilitar o processo às populações locais, a equipa SPEA-BirdLife criou “hotéis de cagarro”: pequenas “casas” de madeira que albergam várias caixas de resgate. Quando um residente local encontra um cagarro caído, pode colocá-lo numa das caixas e contactar a equipa que o irá recolher, garantindo assim que as aves ficam em segurança.

 

O impacto da poluição luminosa na biodiversidade

 

As aves marinhas são as vítimas mais visíveis da poluição luminosa na Madeira, Açores e Canárias, mas não são as únicas. Também muitos insetos noturnos são atraídos pelas luzes, ficando desorientados e voando incessantemente em torno dos candeeiros, podendo morrer de exaustão, por colisão, ou por serem mais facilmente capturados por predadores. E, dado o papel crucial das borboletas noturnas e doutros insetos tanto como polinizadores como como base da alimentação de outros animais, as repercussões ecoam pelo ecossistema. Os morcegos, por exemplo, estão adaptados a caçar à noite, e evitam zonas iluminadas. Quando os insetos de que se alimentam são atraídos pela poluição luminosa, os morcegos ficam sem alimento. Por outro lado, quando são colocadas fontes de luz artificial junto dos seus dormitórios, esse “dia contínuo” pode fazer com que deixem de sair para se alimentar, acabando por morrer à fome. Mesmo as espécies de morcego que toleram melhor a iluminação, como o morcego-da-madeira, sofrem com ela: são atraídas para junto das luzes onde os insetos se concentram, aumentando o risco de colidirem com infraestruturas ou de serem capturados por predadores.

 

Morcego-da-madeira ©Eva Nóbrega

Eva Nobrega

 

Para aprofundar o conhecimento científico sobre os impactos da luz artificial nestes grupos animais, as equipas do projeto LIFE Natura@night estudaram mais de 23 500 insetos e monitorizaram morcegos e aves marinhas. A investigação permitiu identificar espécies mais vulneráveis em cada um dos arquipélagos, compreender padrões de comportamento e mapear zonas de risco associadas à iluminação artificial.

 

Outra parte importante do projeto foi medir, analisar e mapear a poluição luminosa. Fernando Chacón analisou os dados obtidos por fotómetros, análise espectral da iluminação e fotografia calibrada de longa exposição. Como seria de esperar, os resultados mostram que as zonas costeiras — onde se encontram a maioria das áreas urbanas e infraestruturas turísticas — são as mais afetadas pela poluição luminosa. Por outro lado, algumas áreas isoladas ainda têm níveis elevados de escuridão — será fundamental preservar esses refúgios onde a noite ainda é noite de verdade.

 

Soluções eficazes para reduzir a poluição luminosa

 

Também nas zonas mais iluminadas é possível tornar a noite mais amiga da vida. No projeto LIFE Natura@night, conservacionistas, empresas de iluminação e municípios trabalharam em conjunto para desenvolver e aplicar soluções. O projeto demonstrou que pequenas mudanças fazem uma grande diferença: luz direcionada para o solo, com intensidade ajustada, cor quente e usada apenas quando necessária reduz impactos e custos.

 

Mitigação da poluição luminosa ©Ruben Jesus

Ruben Jesus

 

“Juntamente com os municípios parceiros, desenvolvemos Planos Diretores de Iluminação Pública que são como que uma receita para o sucesso”, diz Cátia Gouveia, coordenadora da SPEA Madeira e do projeto LIFE Natura@night.

 

Estes Planos Diretores de Iluminação, desenvolvidos em conjunto com os próprios municípios, dão orientações práticas para otimizar a iluminação urbana, minimizando a poluição luminosa e promovendo a eficiência energética. Entre as soluções implementadas no projeto estão a substituição de 715 candeeiros por versões mais eficientes, e a integração desses candeeiros num sistema inteligente que permite aos municípios controlarem, rua a rua, a intensidade (e nalguns casos até a cor) da iluminação, para poderem, por exemplo, reduzi-la nos horários em que aquele espaço é menos utilizado.

 

Poupanças reais

 

Graças a esta gestão integrada, alguns municípios alcançaram, em algumas zonas, poupanças energéticas de 60%. Com esta poupança na eletricidade vem uma redução significativa das emissões de CO2, contribuindo assim também para os objetivos de combate às alterações climáticas. E, é claro, esta poupança energética traduz-se em poupança orçamental. Estima-se que a energia perdida sob a forma de poluição luminosa custa 5,2 mil milhões de euros à União Europeia, e que na Macaronésia seja da ordem dos 92 milhões de euros. Para os municípios, estas poupanças têm ainda maior relevância, uma vez que a iluminação pública é uma das maiores despesas, chegando a representar 50% do orçamento municipal nalgumas cidades europeias.

 

Poluição luminosa em Machico, ilha da Madeira

 

Não são só as contas públicas que ficam a ganhar ao reduzir a poluição luminosa. Entidades privadas como unidades hoteleiras, por exemplo, podem também implementar alterações à sua iluminação exterior, com benefícios para o orçamento e para a biodiversidade. Para incentivar e reconhecer boas práticas, o projeto criou o Galardão “Noite com Vida”, que já foi atribuído a 50 entidades nos três arquipélagos.

 

Um problema global que requer ações locais

 

Como provam as estatísticas de desperdício energético, a poluição luminosa não é um problema exclusivo das ilhas. Um pouco por todo o mundo, a iluminação artificial excessiva e mal direcionada está a transformar a noite e a afetar profundamente espécies que dependem da escuridão para sobreviver. Em ilhas, é uma ameaça premente para as aves marinhas, contribuindo para que este seja um dos grupos animais mais ameaçados do mundo. As tartarugas marinhas sofrem do mesmo problema: quando as tartarugas bebés eclodem, confundem a iluminação artificial com o brilho do mar, acabando perdidas. Em territórios continentais, muitas aves migradoras, como os tordos e as toutinegras, voam durante a noite, orientando-se pelas estrelas. As luzes artificiais podem fazê-las perder o rumo, atraindo-as para as cidades, onde milhares morrem todos os anos, no mundo inteiro, por chocarem contra edifícios. Mesmo as que escapam a essa sorte despendem muita energia perdidas nos ambientes urbanos, ficando exaustas e vulneráveis a predadores como gatos.

 

A boa notícia é que as soluções também são aplicáveis mundo fora. “Na Madeira, Açores e Canárias mostrámos que funcionam, e agora podem servir de base para que outros municípios beneficiem também” diz Cátia Gouveia.

 

Além dos Planos Diretores de Iluminação, que poderão ser adaptados a outros municípios, as equipas do projeto criaram também manuais de boas práticas para iluminação em sítios Rede Natura2000, em zonas costeiras, e a bordo de embarcações de pesca. Este último resultou também do trabalho direto com pescadores, para testar tecnologias de iluminação a bordo que minimizem a emissão de luz azul, pela qual as aves e outros organismos marinhos têm uma atração fatal.

 

As comunidades locais são parte da solução

 

Este envolvimento da comunidade local — desde pescadores e operadores de marítimo-turísticas a decisores políticos e técnicos municipais, passando por proprietários e gestores de edifícios, residentes e comunidade escolar — foi um dos pilares do projeto. Ao todo, mais de 10 mil pessoas participaram em ações do LIFE Natura@night, e mais de 17 mil alunos estiveram envolvidos nas atividades de educação ambiental do projeto. Uma abordagem que surtiu efeito: nos inquéritos à população dos 8 municípios envolvidos, 90% dos inquiridos referiram a poluição luminosa como um problema importante, 70% indicou a iluminação pública como a principal fonte de luz, e 15% classificou a iluminação da sua área de residência como excessiva. Também patente nestes inquéritos está a forte preocupação das pessoas com os impactos da poluição luminosa na biodiversidade, e em particular nas aves marinhas.

 

Atividade de educação ambiental do projeto LIFE Natura@night

 

Na SPEA-BirdLife, continuamos a trabalhar para que um dia as aves não fiquem encandeadas nem precisem de resgate, mas até lá, cada ave salva é uma vitória.

 

“O mais importante no fundo é ver a união das pessoas para um único objetivo, que é salvar às vezes só uma ave. A gratificação que vemos na cara dos voluntários — todo o trabalho que nós temos vale a pena só por esse momento” conclui Elisa, que já está, com os colegas, a preparar a próxima campanha de resgate.

 

Sobre o projeto LIFE Natura@night

 

O projeto LIFE Natura@night é coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) em parceria com a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, Câmara Municipal do Funchal, Câmara Municipal de Santa Cruz, Câmara Municipal de Machico, Câmara Municipal de Santana, Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa, o Governo Regional dos Açores (através da Direção Regional de Políticas Marítimas), o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza (IFCN, IP-RAM), o Instituto de Astrofísica de Canárias, a ALARED, o Instituto Tecnológico de Canárias, a Fluxo de Luz e a Sociedade Espanhola de Ornitologia (SEO/BirdLife). O projeto é financiado em 60% pelo programa LIFE da Comissão Europeia.

 

Mais informação

 

Site do projeto LIFE Natura@night 

Relatório Não-Técnico do projeto