Numa encosta na zona Este da ilha de São Miguel, nos Açores, esconde-se o maior muro natural da Península Ibérica. Digo “esconde-se” não só por estar num canto remoto de uma ilha no meio do Atlântico, mas por estar tão bem integrado na paisagem, que passa despercebido. E não é por acaso.
Este muro é um exemplo da chamada engenharia natural: “a ideia base é aplicar os efeitos da natureza na construção”, diz Marcos Evangelho, Arquiteto Paisagista na SPEA Açores. Esta abordagem faz parte de um conjunto de Soluções Baseadas na Natureza (Nature-based solutions), que têm ganho proponentes e notoriedade nos últimos anos.
As Soluções Baseadas na Natureza procuram responder a desafios sociais, económicos e ambientais inspirando-se nos processos dos ecossistemas. Em vez de recorrer apenas a materiais artificiais, potenciam e recuperam os serviços que a natureza já fornece — como regular a água, estabilizar solos ou amenizar temperaturas — para criar soluções eficazes que beneficiam simultaneamente as pessoas e a biodiversidade.
“É preciso conhecer bem a ecologia do local onde se quer aplicar a engenharia, porque você quer que ela seja parte de um todo, e que não seja uma barreira aos processos naturais”, sublinha Tarso Costa, Técnico Sénior de Conservação na SPEA Açores.
De entre as Soluções Baseadas na Natureza, a particularidade da engenharia natural, frisa Rui Botelho, coordenador da SPEA Açores, é o foco em princípios de engenharia: “A engenharia natural passa sempre por uma fase de estudos, de projeto, tal como a engenharia tradicional.”
Em alternativa ao betão, estas obras recorrem a elementos como pedras, troncos e a própria vegetação característica do local. Nos Açores, a SPEA tem sido pioneira nesta abordagem desde 2012. “Mas começámos a pensar em como seria possível já em 2008”, recorda Rui Botelho. As áreas onde a equipa procurava restaurar a Laurissilva eram assoladas por cheias e derrocadas, às quais a solução disponível era sempre o betão. Ao mesmo tempo, os trabalhos de restauro esbarravam em encostas instáveis, onde as derrocadas criavam focos de entrada de plantas invasoras, e em linhas de água que a equipa não conseguia reabilitar. Foi nessa altura que conheceram Pedro Teiga, então doutorando na Universidade do Porto e hoje um dos líderes nacionais da engenharia natural, fundador da E.Rio. A colaboração dura há mais de uma década.
Na Mata dos Bispos, a SPEA criou um polo experimental para testar técnicas de engenharia natural para restauro ecológico, por exemplo na contenção de deslizamentos de vertentes e reabilitação de cursos de água. Numa encosta com mais de 200m de desnível, onde as chuvas torrenciais causavam problemas graves de erosão ao transbordar a estrada, combinaram passagens hidráulicas que usam tubos corrugados para conduzir a água por baixo da estrada, com troncos que criam socalcos. Estes socalcos desaceleram a água e retêm sedimentos, evitando enxurradas que arrastem tudo pela encosta. Nesta zona, a SPEA tem sido pioneira em demonstrar a eficácia da engenharia natural em zonas íngremes extremamente instáveis. Nestas situações, são necessárias grandes estruturas — como o maior muro natural da Península Ibérica, com mais de 9m de altura e 30m de comprimento, e uma capacidade de retenção de mais de 270 toneladas. Nestas encostas de solo vulcânico, com declives quase verticais, construir um muro de betão implicaria escavações profundas dada a instabilidade do terreno. Usando troncos e vegetação, as raízes retêm a terra sem necessitar de alicerces gigantes, criando estruturas mais económicas, drenantes e resilientes. “Nos muros vivos, a água infiltra-se e escoa, em vez de se acumular como no betão. E mesmo que um sismo parta raízes, elas regeneram-se sozinhas”, explica Rui.
Não é por acaso que estas técnicas já são usadas há 40 anos em países como a Suíça, para travar derrocadas e avalanches, ou no Monte Etna em Itália. Também têm sido aplicadas no restauro de rios: graças ao projeto LIFE IP Azores Natura, já foram recuperados mais de 3 km de ribeiras no arquipélago, com margens estabilizadas e renaturalizadas através de engenharia natural.
A experiência e sucesso da SPEA nesta abordagem são já reconhecidos a nível local: a SPEA Açores foi contratada para fazer a recuperação das duas principais nascentes de abastecimento público de Vila Franca do Campo, e para restaurar os acessos à Lagoa do Congro.
A equipa está também a trabalhar na mitigação do impacto do turismo em trilhos de áreas naturais. “Em áreas de altitude, com terrenos argilosos ou turfeiras como temos em São Miguel, facilmente se acumula água nos trilhos. Então os visitantes dão a volta, para não pôr o pé na poça, e pisam a vegetação natural. Em locais que têm milhares de visitantes por mês, são áreas enormes de vegetação natural destruída, em áreas protegidas” salienta Rui. A solução é encontrar formas de os trilhos drenarem eficazmente, para que seja mais atrativo ficar no trilho do que sair dele. Dependendo das situações, isso pode significar criar passadiços ou zonas sobre-elevadas com terra, ou usar engenharia natural para orientar o fluxo da água. “Às vezes é algo tão simples como dois troncos e um bocado de terra. Aliás, nós queremos que seja o mais simples possível, e o mais facilmente replicável possível”, explica Rui, acrescentando que estão a preparar um manual de boas práticas para alargar o uso destas soluções.
Muitas destas práticas têm raízes antigas. “O ser humano já fazia soluções baseadas na natureza muito antes de construir em betão”, comenta Tarso. Rui chama-lhe “um novo milenar”: “Quando mostramos às comunidades, muitos dizem ‘ah, isso é como se fazia antigamente’.” A diferença está em cruzar saberes ancestrais com ciência moderna e cálculos de engenharia.
No Planalto dos Graminhais, foi preciso olhar além das memórias recentes para restaurar as turfeiras degradadas pelo pastoreio. “Muitos achavam impossível, mas conseguimos provar que, quando saudável, este ecossistema é extremamente resiliente e resistente a invasoras”, conta Rui. A experiência tornou-se caso de estudo no projeto internacional Spongeboost.
Naturalmente, a engenharia natural tem limitações. Não serve para megaestruturas — “Não vou construir um Alqueva com engenharia natural”, diz Rui — mas quando uma estrutura natural falha, liberta volumes muito menores, com riscos menos catastróficos do que o colapso de uma barragem de betão. Outro desafio é o capital humano: a engenharia natural exige que engenheiros civis e arquitetos trabalhem com biólogos e agrónomos na escolha e propagação das espécies adequadas, seja por sementeira, plantação, estacaria ou hidrossementeira.
Nos Açores, houve ainda a dificuldade de adaptar todas as técnicas às plantas nativas. Isto porque muitas das técnicas já estudadas e estabelecidas usam plantas que nos Açores são invasoras. “Obviamente nós não podíamos estar a trazer espécies invasoras, portanto tivemos que começar do zero, testar e experimentar com as espécies autóctones dos Açores”, explica Rui. “Temos zonas que são verdadeiros laboratórios experimentais para estas técnicas”, complementa Tarso. Hoje, muitas técnicas estão dominadas, embora algumas — como a estacaria — continuem a ser afinadas após uma década de ensaios.
Apesar dos obstáculos, a SPEA Açores é hoje uma referência na área. Para isso, foi crucial a decisão de formar uma equipa própria, especializada, em vez de subcontratar os trabalhos no terreno. Essa integração dos operacionais na equipa SPEA permitiu uma enorme evolução ao longo dos anos, com os resultados dos estudos e as aprendizagens técnicas a entrosarem-se com a experiência no terreno. Graças a esta integração, os colaboradores não só puderam ganhar valências e especializar-se, como passaram a ser parte da equipa, que ganhou identidade. “São os nossos primeiros embaixadores nas comunidades, e eu não queria outra pessoa para o lugar de cada um deles”, diz Rui Botelho com orgulho: “Quando eu vejo a nossa equipa no terreno e comparo com outras, nós realmente somos diferentes. E os resultados são prova disso.”
Dos pequenos trilhos aos grandes muros invisíveis, a SPEA Açores mostra que a engenharia natural não só é viável como eficaz. Mas, como a própria natureza, requer tempo. Rui sonha com horizontes de 30 anos, para assegurar a sustentabilidade e capacitar outros a replicar estas soluções noutras ilhas e regiões. E olha em frente: “Queremos partilhar o que aprendemos, mas também continuar a evoluir, cruzando saberes antigos com a ciência do século XXI.”
Este artigo foi inicialmente publicado na revista Pardela nº70. Torne-se sócio e receba esta revista gratuitamente em sua casa.
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