Julieta Costa 91 397 11 58 julieta.costa@spea.pt

Dezenas de aves ameaçadas abandonaram a colónia onde estavam a nidificar na Albufeira do Caia, Em Santa Eulália (concelho de Elvas), poucos dias depois de a SPEA-BirdLife ter alertado as autoridades para o risco iminente de destruição desta colónia, localizada numa área importante para aves, onde o acesso de gado deveria estar interdito.

A situação tinha sido comunicada, a 1 de junho, ao Departamento Regional da Conservação da Natureza e Florestas do Alentejo, ao Núcleo de Proteção Ambiental da GNR e à Agência Portuguesa do Ambiente. No ofício enviado, a SPEA-BirdLife alertava para a presença de gado a pastar livremente nas margens da albufeira e para o risco de as vacas acederem à pequena ilha onde nidificavam várias espécies de aves que constroem o ninho diretamente no solo.

 

Segundo informações recolhidas no terreno no final da semana passada, foi agora constatado o abandono das colónias de perdiz-do-mar, chilreta e pernilongo. Não foram encontradas evidências diretas de pisoteio por vacas, mas a perturbação causada pela presença do gado nas imediações é apontada como a causa provável do abandono.

 

Na ilha em causa, situada na Área Importante para Aves e Biodiversidade da Albufeira do Caia, estavam registados esta primavera 40 a 50 casais de perdiz-do-mar, espécie classificada como Vulnerável, pelo menos cinco casais de chilreta, também Vulnerável, três a cinco casais de pernilongo e um a três casais de borrelho-pequeno-de-coleira.

“Estamos perante uma situação inaceitável. A SPEA alertou formalmente para o risco, identificou a localização da colónia e pediu uma intervenção urgente para impedir o acesso do gado. Poucos dias depois, a colónia foi abandonada. Isto não pode ser tratado como um incidente menor: estamos a falar da perda de uma época de reprodução de aves ameaçadas, numa área reconhecida pela sua importância para a conservação”, afirma Julieta Costa, Coordenadora de Conservação Terrestre, da SPEA-BirdLife.

 

A SPEA recorda que a legislação em vigor interdita o acesso de gado ao leito da albufeira. No ofício enviado às entidades competentes, a organização sublinhava a ilegalidade da situação: o gado presente junto às margens tinha acesso desimpedido ao leito, o que justificava, por si só, a intervenção imediata das autoridades.

 

A organização considera especialmente grave que esta situação tenha ocorrido depois de um alerta formal e documentado. Acresce que estas ocorrências são habituais nesta albufeira e constituem a principal causa de insucesso reprodutor destas espécies, tendo sido reportado ao ICNF um caso idêntico em junho de 2023, que viria a originar a destruição da colónia, o que reforça a necessidade de medidas estruturais para impedir que episódios deste tipo se repitam.

 

“Tivemos também conhecimento de uma situação semelhante ocorrida este mês na albufeira de Alqueva, junto à aldeia da Luz, onde a presença de gado também se encontra interdita, que terá provocado o abandono de uma colónia com mais de 100 casais de tagaz” acrescenta Julieta Costa. “Não basta lamentar depois de a perda estar consumada. As colónias de aves que nidificam no solo são extremamente vulneráveis à perturbação e ao pisoteio. Quando há alertas concretos, coordenadas, espécies identificadas e enquadramento legal claro, a resposta tem de ser rápida. A inação também tem consequências”, salienta Julieta Costa.

 

A SPEA-BirdLife exige agora o apuramento do que aconteceu, a identificação das responsabilidades e a adoção urgente de medidas que impeçam o acesso de gado às áreas sensíveis da Albufeira do Caia durante a época de nidificação.

 

A organização frisa que este caso deve servir de alerta: não é aceitável que áreas importantes para aves ameaçadas continuem vulneráveis a pressões evitáveis e a situações claramente ilegais, sobretudo quando as autoridades são avisadas a tempo.

 

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