A BirdLife International apresentou hoje o relatório State of the World’s Birds (Estado das Aves do Mundo) na Global Flyways Summit, em Nairobi. Os dados são alarmantes: 45% das espécies de aves migradoras do mundo está em declínio. Perante esta situação, os governos, cientistas, organizações de ambiente e instituições financeiras reunidos na cimeira assinaram hoje a Declaração de Nairobi para as Rotas Migratórias, comprometendo-se a proteger aves e habitats ao longo de todo o trajeto da migração. Como ponto importante na rota migratória de muitas espécies, Portugal tem responsabilidade acrescida na sua proteção.

 

Quase metade das aves migradoras está em declínio

Os dados são preocupantes: 45% das espécies de aves migradoras estão em declínio e uma em cada nove está ameaçada de extinção, segundo o relatório Estado das Aves do Mundo. O relatório é publicado de quatro em quatro anos, mas esta é a primeira edição dedicada às aves migradoras e às rotas que percorrem.

 

A extinção do maçarico-de-bico-fino em 2025 — a primeira de uma ave na Eurásia continental e África em séculos — ilustra a gravidade da situação. Outras seis espécies migradoras foram confirmadas ou suspeitas de extinção nos últimos 150 anos. Espécies dependentes de habitats marinhos, florestais e zonas húmidas costeiras estão entre as mais afetadas, sendo as aves marinhas e limícolas particularmente vulneráveis.

 

Ainda assim, o relatório aponta soluções: as causas do declínio (como espécies invasoras, intensificação agrícola, alterações climáticas e caça insustentável) são conhecidas e podem ser combatidas. Ações coordenadas ao longo de toda a rota migratória já demonstraram resultados positivos, como no caso do britango nos Balcãs.

 

“As aves migradoras são sentinelas, e o seu declínio revela a pressão crescente nos sistemas naturais que nos sustentam. Mas a ciência é igualmente clara: a conservação funciona, com ação coordenada a prevenir extinções e ajudar populações a recuperar. As soluções existem: o que é preciso agora é implementá-las à escala das rotas migratórias” diz Dr Stuart Butchart, Cientista Chefe da BirdLife International e editor sénior do relatório Estado das Aves do Mundo.

 

Para a SPEA-BirdLife, estes resultados reforçam a urgência de uma ação coordenada também em Portugal.

“Portugal desempenha um papel crucial nas rotas migratórias entre a Europa e África. Proteger zonas húmidas, áreas costeiras e habitats agrícolas é essencial não só para as aves que aqui nidificam, mas também para as que cá passam o inverno, e para os milhões de aves que dependem do nosso território como escala. Precisamos de políticas mais ambiciosas e de uma aplicação eficaz das que já existem” diz o nosso Diretor Executivo, Pedro Neto.

 

Rotas migratórias: uma rede interligada

O relatório sublinha que as rotas migratórias são redes complexas de habitats interligados ao longo de continentes. A degradação de um único ponto pode comprometer toda a cadeia. A abordagem da BirdLife, através do Global Flyways Programme, aposta na conservação integrada ao longo de todo o percurso migratório, desde áreas de reprodução a zonas de invernada. Esta abordagem viu-se cristalizada na cimeira Global Flyways Summit, em Nairobi, coorganizada pela BirdLife International e pela Nature Kenya, que culminou num compromisso pioneiro entre governos, cientistas, instituições financeiras e organizações de ambiente para agir à escala das rotas migratórias.

 

Compromisso global sem precedentes

A assinatura da Declaração de Nairobi marca um compromisso inédito de cooperação internacional.

 

“As aves migradoras não reconhecem fronteiras. Elas ligam a Ásia a África, o Ártico aos trópicos. A Declaração de Nairobi para Rotas Migratórias reconhece esta realidade — que é necessária cooperação e coordenação internacional para proteger as aves migradoras. Estou entusiasmada e orgulhosa por ver que a comunidade científica, as organizações de ambiente e o setor financeiro estão a unir-se para fazer com que isso aconteça. Finalmente! Estamos num importante ponto de viragem. Há muito que esperávamos por este momento” diz Sua Alteza Imperial Princesa Takamado, Presidente Honorária da BirdLife International.

 

Mais de 6 mil milhões de dólares para conservação

Instituições como o Banco Mundial e bancos regionais de desenvolvimento estão a integrar a conservação das rotas migratórias nos seus investimentos, mobilizando mais de 6 mil milhões de dólares desde 2021. Estes financiamentos irão apoiar a proteção de zonas húmidas, paisagens e comunidades em vários continentes.

 

“O relatório Estado das Aves do Mundo é inequívoco: estamos a perder aves migradoras a um ritmo alarmante. Mas a Declaração de Nairobi assinada hoje marca um ponto de viragem. Precisamos que todos se mobilizem e desempenhem o seu papel. Isso inclui governos, empresas e sociedade civil. Os bancos de desenvolvimento estão a responder ao desafio. A Parceria BirdLife está preparada para agir. Precisamos agora que outros se mobilizem para reverter o declínio e salvar a maravilha da migração” diz Martin Harper, Diretor Executivo da BirdLife International.