Texto de Marta Vidal
Durante a época de migração, milhões de aves voam sobre a Palestina, um importante corredor para centenas de espécies que viajam entre África, a Europa e a Ásia. As aves sobrevoam palestinianos na “maior prisão a céu aberto” em Gaza – sitiada por terra, mar e ar desde 2007, e agora alvo de um genocídio – e sobre palestinianos que vivem sob ocupação, apartheid e limpeza étnica, na Cisjordânia.
Por toda a Palestina, as aves constroem ninhos nos buracos de edifícios bombardeados, nos telhados de postos de controlo e junto a torres de vigia. Voam sobre os muros de betão que fragmentam o território e empoleiram-se no arame farpado e nas barreiras criadas para segregar e confinar a população palestiniana.
Mas apesar da violência, da opressão e das restrições impostas pela ocupação israelita, os palestinianos continuam a erguer a cabeça para admirar as aves e sonhar com liberdade.
Beija-flor-da-palestina
Lara e Mandy Sirdah
Em Gaza, as gémeas Lara e Mandy Sirdah continuam a observar e a fotografar aves, mesmo durante o genocídio. Forçadas a abandonar a sua casa no norte da Faixa de Gaza após ordens de expulsão do exército israelita, em novembro de 2023, as irmãs persistem em publicar fotografias das aves que encontram.
Antes do genocídio, Lara e Mandy trabalhavam com uma associação que prestava apoio a pessoas surdas em Gaza, mas o centro comunitário foi bombardeado e destruído pelo exército israelita, em março de 2024.
As gémeas começaram a fotografar aves e vida selvagem há mais de uma década. Apesar dos muitos obstáculos e restrições, já identificaram 165 espécies, em Gaza. Partilham as suas fotografias nas redes sociais (@sirdahtwins no Instagram) para dar a conhecer a biodiversidade da região e promover conservação no enclave sitiado, tão hostil à vida.
“Observar aves e a vida selvagem trouxe-nos muito conforto perante o terror da guerra, da deslocação e das tragédias em Gaza”, contam.
Gaza devastada
Antes de ser ocupada por Israel, em 1967, Gaza tinha uma das zonas húmidas mais importantes do Mediterrâneo Oriental, um refúgio para aves e biodiversidade. Mas o ecossistema começou a degradar-se com o desvio de água a montante e a construção de barragens em Israel. Ao longo de décadas, os ataques israelitas devastaram comunidades palestinianas, mas também o ambiente que sustenta todas as formas de vida.
O genocídio em Gaza representa a expressão mais brutal da violência colonial israelita. Desde outubro de 2023, Gaza foi completamente destruída por bombardeamentos israelitas e enterrada sob mais de 50 milhões de toneladas de escombros. Os ataques israelitas mataram mais de 67 mil palestinianos, incluindo mais de 20 mil crianças, com milhares de corpos ainda por resgatar dos destroços.
Apesar da morte e da devastação, os palestinianos continuam a tentar proteger a vida e a observar aves — mensageiras da esperança que rasgam com as asas os limites do bloqueio e sobrevoam o território ocupado para lembrar que ainda há formas de viver livre.
Este artigo foi publicado na revista Pardela Inverno 2025/26.
Projeto Birders of Palestine: fotos para apoiar
O projeto “Birders of Palestine” foi criado para apoiar as observadoras de aves em Gaza através da venda de fotografias tiradas pela Lara e Mandy Sirdah. Os fundos revertem na sua totalidade para as irmãs gémeas em Gaza.
Sobre a autora
Jornalista independente, viajou para Gaza na primavera de 2023. Os seus artigos sobre os observadores de aves palestinianos foram publicados pelo Expresso e pelo The Guardian e reconhecidos com vários prémios de jornalismo.
Exposição
As fotografias dos observadores de aves palestinianos vão ser expostas, na Mira Galerias, no Porto, de 24 de janeiro a 28 de março, com terá entrada gratuita. A exposição inaugura no dia 24 de janeiro, com a participação dos observadores de aves e fotógrafos de natureza palestiniano Mohamad Shuaibi e Bashar Jarayseh, numa semana de eventos e conversas organizadas em colaboração com a SPEA.
Inauguração e eventos
24 de janeiro, Mira Galerias
16h – Inauguração da exposição
18h – Conversa com Mohamad Shuaibi e Bashar Jaraseh
25 de janeiro, Parque da Cidade
8h30 – Observação de aves
28 de janeiro, Mira Galerias
18h – Visita Guiada com Mohamad Shuaibi e Bashar Jarayseh
30 de janeiro, Mira Galerias
21h30 – Sessão de poesia



