Não faltam razões para um passeio entre Setúbal e a Comporta. Neste roteiro pelo Estuário do Sado, vamos dar-lhe algumas, a começar pelas mais de 40 000 aves que passam aqui o inverno.
O dia começa com uma viagem de ferry-boat entre Setúbal e Tróia; 30 minutos recheados de esperança, pois há a possibilidade de avistar algum golfinho roaz-corvineiro (Tursiops truncatus), o símbolo da Reserva Natural do Estuário do Sado, e que tem nesta área protegida a sua única população residente em Portugal.
O estuário do Sado é a segunda maior zona húmida do país, com mais de 23 000 ha que se estendem pelos concelhos de Setúbal, Palmela, Alcácer do Sal e Grândola. Além de reserva natural, esta área protegida cujas pradarias marinhas funcionam como uma verdadeira maternidade de uma grande diversidade de peixes, incluindo os ameaçados cavalos-marinhos, integra também a Rede Natura 2000 e a lista de zonas húmidas de importância internacional da Convenção Ramsar.
A paisagem é dominada pela água, e pelas aves aquáticas, que encontram nos estuários da costa portuguesa, autênticas “estações de serviço”. Integrando a rota de migração do Atlântico Leste, são usados para descanso e reabastecimento entre as zonas de invernada e reprodução; como local de nidificação de diversas espécies oriundas de África; ou como destino de invernada para muitas espécies que nidificam no norte da Europa. No estuário do Sado, esta localização privilegiada para receber espécies provenientes do Atlântico norte e do Mediterrâneo resulta numa incrível abundância: mais de 40 000 aves no inverno.
Durante os meses mais frios do ano, o estuário do Sado alberga mais de 1% da população mundial de várias espécies de aves limícolas: pilrito-de-peito-preto
(Calidris alpina), milherango (Limosa limosa), perna-vermelha (Tringa totanus), borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula), e tarambola-cinzenta (Pluvialis squatarola). Destacam-se também flamingos (Phoenicopterus roseus), colhereiros (Platalea leucorodia), alfaiates (Recurvirosta avosetta), garças e várias espécies de patos. Este é ainda um dos melhores locais do país para observar os escassos mergansos-de-poupa (Mergus serrator) e os mergulhões-de-pescoço-preto (Podiceps nigricollis).
O desafio das marés
Nos estuários, a vida segue o ritmo das marés. E um observador também. Na baixa-mar, as planícies de vasa ficam expostas, atraindo milhares de aves para a “hora da refeição”. Um espetáculo natural digno de se ver, em que bicos de estranhas formas e tamanhos lembram diversos utensílios “desenhados” para capturar diferentes tipos de presas em diferentes tipos e profundidades de substratos. Nestas zonas entre-marés, há um verdadeiro “space-sharing”: o milherango e o pilrito-de-peito-preto preferem bivalves e seguem a maré, mantendo-se em zonas com água; já a tarambola-cinzenta e o perna-vermelha, que preferem minhocas poliquetas, são mais frequentes em zonas ainda sem água.
Quando a maré sobe, estas zonas de alimentação ficam submersas e começam os desafios – há que procurar as margens, sendo os refúgios mais procurados os sapais, campos agrícolas como arrozais e salinas.
Salinas com vida
As salinas são ecossistemas artificiais seculares destinados à produção de sal através da evaporação de água salgada pela ação do sol e do vento. Quando exploradas de forma tradicional, podem ser grandes aliadas das aves. A gestão do nível da água permite manter profundidades e graus de salinidade estáveis e diferenciados nos diversos tanques, promovendo o desenvolvimento de grandes densidades de algas, moluscos e crustáceos, que atraem diferentes espécies de aves.
Assim, durante a maré-alta, nas salinas é possível observar grandes bandos de limícolas a descansar, a limpar as penas ou a alimentar-se, sendo estes espaços refúgios de maré muito importantes durante a migração. Os cômoros, que delimitam os vários tanques das salinas e têm reduzida cobertura vegetal, são locais de nidificação para aves como os pernilongos (Himantopus himantopus), borrelhos-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus), alfaiates, chilretas (Sternula albifrons) e perdizes-do-mar (Glareola pratincola).
No estuário do Sado, apesar de a produção de sal ter tão antiga como as ruínas romanas de Tróia, que constituíram o maior centro de produção de salgas de peixe do Império, a atividade é hoje quase inexistente. Com o aparecimento de outras técnicas de conservação de alimentos e de métodos de produção de sal industrial, a produção de sal tradicional deixou de ser economicamente rentável. Isto levou ao abandono e degradação das salinas ou à sua reconversão em tanques para aquacultura, fazendo esquecer o tempo em que o estuário do Sado foi o maior produtor de “ouro branco” do país, que galeões setecentistas transportavam com o peixe rio acima. Este abandono resulta numa perda de riqueza biológica, ecológica, histórica e cultural e numa profunda alteração na paisagem. A perda deste habitat é precisamente um dos principais fatores que conduziu ao acentuado declínio populacional em muitas espécies de aves migradoras, sobretudo limícolas.
Para reverter este cenário, a SPEA, a Vogelbescherming/BirdLife Holanda e parceiros mediterrânicos da BirdLife, juntaram-se no projeto Saltpan Recovery,
que continua agora com o apoio da fundação MAVA, sob o nome “Salinas com Vida”. Em andamento na Herdade da Mourisca, o projeto pretende sensibilizar o público em geral e atores locais para a importância das salinas tradicionais e a suas potencialidades, bem como promover o seu restauro e a gestão tradicional e sustentável, e ser o ponto de partida de um longo trabalho que culmine na recuperação e reativação das salinas, compatibilizando os seus diversos usos e produtos com a conservação das aves.
O potencial das salinas para o birdwatching é tremendo. Verdadeiros oásis para as aves, podem albergar milhares de indivíduos durante a maré alta, podendo mesmo concentrar-se num único complexo de salinas o grosso das populações que se encontram no estuário. E é aqui que terminamos o nosso roteiro: no café do Moinho da Mourisca, depois de um passeio pelos observatórios, e com a certeza de que ainda ficou muito por ver na região.
Este artigo foi originalmente publicado na revista Pardela nº 59, com o título “Um roteiro entre marés”.
Observação de aves no Sado
Estamos a trabalhar com a Câmara Municipal de Setúbal para dinamizar a observação de aves nesta região.