No verão de 2023, 15 crias de abutre-preto nascidas nas quatro colónias portuguesas foram marcadas com emissores GPS, no âmbito do projeto LIFE Aegypius Return. Como se processa a operação de marcação de crias? Que tipo de informações são recolhidas e de que forma permitem melhorar o estado de conservação da espécie em Portugal? Neste artigo, a Vulture Conservation Foundation, coordenadora do projeto, explica-nos tudo.

 

Como se marcam crias de abutre-preto?

As equipas de monitorização, em campo desde o início de 2023, acompanham toda a época reprodutora da espécie nas quatro colónias de abutre-preto do país, localizadas no Parque Natural do Douro Internacional, na Reserva Natural da Serra da Malcata, no Parque Natural do Tejo Internacional e na Herdade da Contenda. Além de monitorizarem os casais reprodutores conhecidos, as equipas do projeto identificaram novos ninhos em todas as colónias. Os técnicos acompanharam a evolução das crias no ninho, o que lhes permitiu determinar o momento mais adequado para as marcações, com base na idade das crias.

 

abutre-preto juvenil marcado no ninho no Douro Internacional

 

Ao longo do projeto LIFE Aegypius Return serão marcados e processados 60 abutres-pretos em Portugal. Além das crias, pretende-se também marcar adultos e juvenis que dêem entrada em centros de recuperação e que poderão vir a ser devolvidos à Natureza, sempre que possível, com vista

ao reforço populacional da frágil colónia do Douro Internacional, como já aconteceu com o abutre-preto apelidado de Zimbro, devolvido à natureza em março de 2023.

 

Neste projeto, a “marcação” consiste em três procedimentos diferentes, que permitem obter informações distintas.

 

Anilhagem Científica

A marcação mais comum em projetos de ornitologia é a anilhagem científica, em que se coloca numa

das patas da ave uma pequena anilha metálica com um código identificador único, que funciona como uma espécie de Bilhete de Identidade para a ave. Sempre que existir um novo contacto de proximidade com aquela ave – viva ou morta – e em qualquer local do mundo, é possível consultar os seus dados, como a idade, sexo, peso, locais de registo, entre outros, permitindo aferir sobre a sua longevidade e movimentos. Em Portugal, as anilhas são emitidas pelo CEMPA — Centro de Estudos

de Migrações e Proteção de Aves, organismo que integra o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) e que gere as bases de dados associadas às anilhagens feitas no nosso país. A anilhagem de aves está restrita a técnicos experientes e devidamente acreditados para o efeito.

 

Colocação de anilhas coloridas

No projeto LIFE Aegypius Return recorremos também à colocação de anilhas muito leves, em PVC, com um código de cores, letras e números. Estas anilhas são um pouco maiores que as metálicas e

permitem a obtenção de informação observando as aves à distância (ao contrário da anilha metálica, que só é possível de ler quando a ave é capturada).

 

Colocação de emissores

Ao longo do projeto LIFE Aegypius Return, os abutres-pretos serão marcados com um pequeno emissor GPS equipado com um acelerómetro e um mini painel solar, que o mantém funcional. Este dispositivo pesa cerca de 50g — uma carga irrelevante para uma espécie que pode pesar mais de 11kg

— e permite adquirir informação valiosa para a conservação destes abutres.

 

Os emissores enviam informação sobre a localização exata da ave, em tempo real, e também sobre os seus movimentos, a posição e a temperatura, permitindo perceber quando a ave se está a alimentar, em repouso ou, por exemplo, se está imóvel ou envolvida nalguma luta. Os dados recebidos permitem tirar conclusões sobre fatores de ameaça e possibilitam uma atuação muito rápida por

parte das equipas técnicas locais, em caso de necessidade.

 

Que outras informações obtemos durante a marcação de crias?

Contactar diretamente com aves tão impressionantes e sensíveis quanto o abutre-preto é uma oportunidade única, que deve ser otimizada o mais possível para a obtenção de informação científica que auxilie na tomada de decisões para a sua conservação.

 

 

 

Vulture Conservation Foundation
Paulo Monteiro/SPEA
Paulo Monteiro/SPEA

 

No âmbito do LIFE Aegypius Return, todos os abutres-pretos com que as equipas contactam são sujeitos a um exame médico-veterinário, para avaliar a sua condição corporal, o estado de saúde geral e a eventual presença de lesões, doenças ou parasitas. É também feita a medição de várias características como o comprimento do bico e o tamanho da asa, por exemplo, e são recolhidas amostras biológicas de cada ave, que permitem posteriormente, em laboratório, determinar o sexo e fazer análises bioquímicas, hematológicas, genéticas e toxicológicas. Estes estudos possibilitam, por um lado, obter dados de referência, e, por outro, detetar doenças ou eventuais causas de risco ou de

contaminação. As análises genéticas permitem ainda verificar a linhagem de cada indivíduo e, no conjunto, entender dinâmicas populacionais e de reprodução entre colónias e regiões. Todas estas

informações são fundamentais para melhor compreender a espécie e as ameaças que enfrenta, possibilitando uma gestão mais rigorosa e informada das medidas de conservação implementadas.

 

A importância de marcar abutres-pretos com emissores GPS

Quando as crias marcadas ganham autonomia dos progenitores e saem do ninho, a informação que recebemos dos seus emissores GPS é fundamental para estudar os movimentos de dispersão da espécie, e detetar eventuais novas áreas onde se instalem. Ao monitorizar regularmente a localização

de cada abutre marcado, apercebemo-nos da variabilidade dentro da própria espécie: alguns indivíduos passam a vida numa só região, enquanto outros parecem ter um espírito mais aventureiro.

 

Dos abutres-pretos acompanhados no projeto LIFE Aegypius até agora, o recordista é o Zimbro, que em maio de 2024 fez mais de 3 000 km, tendo chegado ao norte de França e regressado à zona de Salamanca, onde permanece!

 

O Juniperus, uma das crias nascidas em 2023 na colónia do Douro Internacional, também é muito viajado, sendo comum percorrer o país de norte a sul.

 

Os dados recebidos vão permitir ainda identificar áreas prioritárias para a redução do risco de colisão ou eletrocução com infraestruturas elétricas, através da instalação de marcadores e isolamento dos postes de eletricidade. Além disso, a informação dos emissores GPS permite atuar rapidamente, em caso de suspeita de uma potencial situação de risco. No caso de ser detetado um abutre-preto em risco, os técnicos do projeto informam de imediato o ICNF e a Guarda Nacional Republicana (GNR), que irão avaliar a situação e, se necessário, recolhê-lo e transportá-lo até

ao Centro de Recuperação de Animais Selvagens mais próximo. No âmbito deste projeto, 135 agentes do Serviço de Proteção da Natureza e Ambiente (SEPNA/GNR) já participaram em sessões

de capacitação para consolidar conhecimentos em resgate e manuseamento de abutres-pretos detetados em situação de risco.

 

Foi o que aconteceu com o Freixo, um dos abutres-pretos marcados no verão passado. Muito fiel à sua terra natal, o Freixo nunca se afastou muito das arribas do Douro. E foi a 4 km do seu ninho que acabou por morrer, num dos seus primeiros voos mais longos. O sinal de GPS subitamente imóvel sob uma rede de linhas eléctricas sobre as arribas fez disparar o alarme. As equipas da Palombar e da SPEA deslocaram-se de imediato para o local, iniciando uma busca difícil por entre as arribas e arbustos, e só no dia seguinte conseguiram localizar o Freixo, já morto, e recuperar o transmissor. A ave foi enviada para necrópsia no Hospital Veterinário da Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro, onde foi confirmada a causa de morte: colisão com os cabos eléctricos. O Freixo apresentava múltiplas fraturas, resultantes da colisão frontal. Serão agora efetuadas análises adicionais para excluir a possibilidade de a colisão se ter devido a desorientação causada por doença ou contaminação por chumbo, por exemplo.

 

Lições da mortalidade dos abutres

Das 15 crias marcadas no verão passado, o Freixo foi o segundo a morrer até agora. A primeira situação mortal registada no projeto demonstra que para estes abutres, um comportamento

mais aventureiro não significa necessariamente uma maior preparação e uma maior sobrevivência. Uma cria ainda sem nome, nascida na colónia de reprodução da Serra da Malcata, voou para Espanha ainda muito jovem e afogou-se em setembro perto de Bilbau, a mais de 400 km do ninho.

Seguindo o sinal do transmissor GPS, a ave acabou por ser encontrada numa ribeira por agentes ambientais da Cantábria. Também neste caso foi efetuada uma necrópsia no Centro de Recuperación de Fauna Silvestre de Cantabria e enviadas amostras para o laboratório de referência da Junta de Andaluzia para detetar possíveis venenos ou outras substâncias. Todas as análises feitas a contaminantes devolveram resultados negativos, havendo indícios de que esta ave se terá afogado

no seguimento de uma septicemia de origem bacteriana.

 

 

 

Já este ano, em maio, o projeto registou uma terceira morte de um abutre-preto marcado com GPS. Desta feita, um abutre que tinha sido marcado em 2021 já como juvenil, depois de ter sido encontrado exausto em Vila de Vide, perto de Seia.

 

Depois de recuperar forças no Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS), este abutre, que recebeu o nome VideAndre, foi devolvido à natureza no Parque Natural do Douro Internacional, e rapidamente voou para a zona a Este de Cáceres, onde viveu desde então. Foi nessa zona que foi encontrado sem vida no final de maio deste ano, numa propriedade abandonada, após o alerta desencadeado por técnicos do projeto com base nos dados do GPS.

 

Embora estas mortes sejam de lamentar — sobretudo quando se trata de uma espécie em perigo de extinção, em que cada indivíduo é de grande importância para a recuperação da espécie — refletem as diferentes personalidades e adaptações de cada ave, podendo ter repercussões em termos de seleção natural. Toda a informação recolhida é valiosa, mesmo que nem sempre seja a que gostaríamos de analisar. Conhecer e compreender os padrões de comportamento das aves e as causas de mortalidade permite uma ação preventiva mais eficaz para minimizar as ameaças e conservar a espécie.

 

Mais informação

Projeto LIFE Aegypius Return

Abutre-preto